quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Toda a gente agora tem uma obsessão imbecil pela natureza. Conhecidos meus, em geral gente calma e de bom senso, percorrem os hipermercados em busca do sumo natural perdido, anseiam e desesperam por sair de casa e respirar ar puro no meio das filas de trânsito, gastam horas a suar na marginal, em trajes menores, a respirar a maresia com travo de gasóleo.
A natureza é uma coisa horrível, cheia de bichos e humidade. Séculos de civilização deram-nos o tear, o alcatrão e a vidraça. E para quê? Para que os felizes herdeiros de tudo isso, nós mesmos, esta gente aqui do século XXI (Hé-lá-á-á-á-á-á-á! De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro, saúdo-te, Walt), metida em fatos de treino de cores berrantes, roxo cinzento verde laranja roxo verde cinzento laranja verde laranja roxo cinzento - vão correr para Monsanto.
Fiquem em casa e dêem uma queca! Drunfem os filhos, desliguem a televisão e metam-se na cama! Não façam nada disso e durmam. Bebam. Leiam. Percam-se nos chats, na cybertreta, no blogodancing. Arrotem. Mas por favor favor por favor - não sejam naturais.
A natureza transmite doenças. A natureza mata. A natureza provoca impotência, cancro da pele, cancro da mama, escorbuto, sida, fome, enfarte do miocárdio, pele seca, candidíase, colibacilo, caspa.
A natureza é uma desgraça.

sábado, 2 de julho de 2005

Ver Mr. and Mrs. Smith.
O filme é uma porcaria. Nem sequer gosto muito da Angelina Jolie. Mas a rapariga veio dizer o que todos os homens agradecem: que, quando começou a apalpar mulheres, percebeu que não há nada melhor do que umas boas curvas, e que a mania das anorécticas é uma merda. Louvada seja.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Cannes, 20 de Maio de 2003. Apresentação de Dogville, de Lars von Trier, com Nicole Kidman. Em Dogville a Kidman, além de ser violada várias vezes, anda metade do filme a arrastar um peso que tem amarrado aos pés com uma corrente para não fugir da cidade.
Contavam-se histórias de violentas discussões entre a Kidman e von Trier, com cenas de choro à mistura. Depois ela aparece em Cannes ao lado dele, a declarar que adorou ser dirigida por von Trier e que tenciona repetir a dose.
Um jornalista americano chama "taliban" ao realizador. Resposta: «Não acho graça nenhuma quando é um homem a ser torturado; prefiro as mulheres. Tenho pena que não tenha gostado do filme, mas haverá sempre quem goste... até das correntes.»
von Trier é conhecido pela violência - na relação com os actores (ver Bjork) e nas histórias que conta. Uma violência às vezes surda (ver Europa, filme já antigo, de 1991). Mas em Dogville há uma evidente acentuação dessa violência, e qualquer coisa de maligno na forma como o cenário é despido de elementos físicos (não há casas, apenas o seu desenho no chão) e tudo se concentra absolutamente nos corpos e nos elementos que os subjugam (o lenço que esconde os cabelos ruivos de Kidman, os ferros que a prendem).

domingo, 22 de maio de 2005

IRREVERSIBLE
um filme de Gaspar Noé
com Vincent Cassel, Monica Bellucci, Albert Dupontel

O filme trata de uma violação brutal e da vingança que o namorado e um amigo do namorado levam a cabo.
Estranha mas muito boa é a forma como a história é contada: de trás para a frente, do fim para o princípio. Começa quando a polícia retira de um bar rasca os feridos que resultaram do ajuste de contas entre os dois homens e o violador, e prossegue depois, episódio por episódio, até ao início da noite, quando a mulher e o namorado estão em casa a prepararem-se para sair.
Vista assim, a história assume claramente a irreversibilidade do título: já sabemos o que aconteceu depois de cada episódio, de cada escolha que vemos no écran. Nada poderá ser diferente porque já aconteceu.
Além disso há a Monica Belucci. Não há homem nenhum que não compreenda a violação. Ou a vingança.
Confesso a minha ignorância. Nunca tinha ouvido falar de Ira Levin nem das Stepford Wives. Encontrei o livro por acaso na FNAC. E só olhei segunda vez para ele porque tinha na capa a cara da Nicole Kidman.
Voltarei a falar da Kidman. Agora interessa-me Ira Levin.

Para quem não sabe, The Stepford Wives é um livro de 1972 que deu
um filme em 1975 e um remake em 2004.

A história é simples. Numa pequena cidade americana com uma concentração elevada de empresas high-tech, um grupo de maridos fartos de esposas feministas ou proto-feministas traça um plano maldoso e genial: substituir as reinvindicativas e preguiçosas caras-metade por andróides submissas e sexy.
No início da história, Joanna, uma recém-chegada imbuída do espírito women lib típico dos anos 70, fotógrafa amadora, tenta ultrapassar, sem sucesso, a atitude recatada e estranhamente coquete das esposas de Stepford, ao mesmo tempo que manifesta o seu desagrado pela Men's Association e faz amizade com outras duas mulheres que, como ela, chegaram à cidade há pouco tempo e, como ela, estranham tudo aquilo: Bobbie e Charmaine. O marido manifesta-lhe inteiro apoio. À medida que a história avança, as duas amigas tornam-se, também elas, esposas de Stepford - submissas e coquetes. Por fim, Joanna descobre o maquiavélico plano por trás de tudo aquilo e, sobretudo, que o próprio marido é conivente. Também ela, numa sequência final trepidante, vai tornar-se uma esposa de Stepford.

Agora. O que é muito interessante neste livro - para além da escrita, que é realmente boa, a anos-luz do estilo pastoso-arroz-malandro a la Stephen King - é a forma subtil como Ira Levin dá um retrato irritante das mulheres verdadeiras - desleixadas, desarrumadas, egoístas - que faz com que o leitor, quase sem se aperceber, não consiga sentir empatia pelo seu destino cruel: Charmaine é uma puta frígida que só pensa em jogar ténis e ver-se livre do marido, e Bobbie é uma 'companheira' avant la lettre. Não se consegue lamentá-las. Experimentamos mesmo uma satisfação maldosa quando as vemos transformadas em bonecas sexuais e maníacas do housekeeping, submissas à vontade dos maridos e arrependidas das atitudes egoístas do passado.

Deve ter sido aqui que o bdsm americano foi buscar a estranha mania das slaves housekeepers.

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Hyeronimus Bosch era um católico devoto, partidário da Contra-Reforma. Suponho que nada teria contra o Santo Ofício. Pintou para igrejas, palácios de bispos e sedes de confrarias. Ele mesmo foi confrade de Nossa Senhora de 'sHertogenbosch.
Tinham intuitos didácticos, pois, as pinturas. Deliciosa ironia.
O meu primeiro contacto com Bosch foi no Prado, aos 14 anos, precisamente diante do INFERNO, parte do tríptico O JARDIM DAS DELÍCIAS. As minhas imberbes hormonas saltaram de gozo culpado diante dos corpos torturados e dos esgares que se não entende se são de sofrimento ou êxtase. Já se sabe que esses dois estados da alma se não separam.
Bosch foi, pois, o primeiro SM. Foi, pelo menos, quem primeiro me apresentou os fascínios equívocos desse mundo. Passei um dia inteiro no Prado, sozinho, e um bom terço desse tempo foi gasto na ala Bosch. O resto, vi quase a correr - incluindo a GUERNICA, uma desilusão, e LA MAJA DESNUDA, claramente superior a muito material da Gina.

sábado, 26 de março de 2005

Haverá quem vá ao cinema ver um filme com a Monica Belucci para ver o filme? Quem são esses castrados? Os filmes com a Monica Belucci deviam passar no Olímpia, ou no Animatógrafo. Só para homens.
Gosto do Bukowski. É um beatnick bêbado semi-impotente mas não tem vergonha. Para ele as mulheres são conas com pernas, boas para apalpar e foder. Não é como o Miller, que tem sempre de embrulhar as fodas em epigramas e divagações pseudo-filosóficas. Ou o Gutierrez, que disfarça o espírito fodilhão sob a capa do cubano balda e pobre. Não. O Bukowski é americano, é arrogante, é malcriado, é preguiçoso, é porco - e fode tudo o que lhe aparece à frente. E supõe-se que, no fim, arrota.

sexta-feira, 25 de março de 2005

Parada junto ao semáforo da Alexandre Herculano com a Braancamp. O sinal está amarelo e ainda posso passar, mas travo e páro. Ao meu lado param um taxista e outro tipo. Ela atravessa. Calças brancas de huri, muito largas, atadas em baixo nos tornozelos, seguras por um cordão amarelo à cintura. Blusa amarelo-dourado. Mamas. Saltos. RayBans. Deus!
Devo estar com cara de asno, porque ela olha-me fixamente ao passar à minha frente e ri-se.