Cannes, 20 de Maio de 2003. Apresentação de Dogville, de Lars von Trier, com Nicole Kidman. Em Dogville a Kidman, além de ser violada várias vezes, anda metade do filme a arrastar um peso que tem amarrado aos pés com uma corrente para não fugir da cidade.
Contavam-se histórias de violentas discussões entre a Kidman e von Trier, com cenas de choro à mistura. Depois ela aparece em Cannes ao lado dele, a declarar que adorou ser dirigida por von Trier e que tenciona repetir a dose.
Um jornalista americano chama "taliban" ao realizador. Resposta: «Não acho graça nenhuma quando é um homem a ser torturado; prefiro as mulheres. Tenho pena que não tenha gostado do filme, mas haverá sempre quem goste... até das correntes.»
von Trier é conhecido pela violência - na relação com os actores (ver Bjork) e nas histórias que conta. Uma violência às vezes surda (ver Europa, filme já antigo, de 1991). Mas em Dogville há uma evidente acentuação dessa violência, e qualquer coisa de maligno na forma como o cenário é despido de elementos físicos (não há casas, apenas o seu desenho no chão) e tudo se concentra absolutamente nos corpos e nos elementos que os subjugam (o lenço que esconde os cabelos ruivos de Kidman, os ferros que a prendem).
segunda-feira, 23 de maio de 2005
domingo, 22 de maio de 2005
IRREVERSIBLE
um filme de Gaspar Noé
com Vincent Cassel, Monica Bellucci, Albert Dupontel
O filme trata de uma violação brutal e da vingança que o namorado e um amigo do namorado levam a cabo.
Estranha mas muito boa é a forma como a história é contada: de trás para a frente, do fim para o princípio. Começa quando a polícia retira de um bar rasca os feridos que resultaram do ajuste de contas entre os dois homens e o violador, e prossegue depois, episódio por episódio, até ao início da noite, quando a mulher e o namorado estão em casa a prepararem-se para sair.
Vista assim, a história assume claramente a irreversibilidade do título: já sabemos o que aconteceu depois de cada episódio, de cada escolha que vemos no écran. Nada poderá ser diferente porque já aconteceu.
Além disso há a Monica Belucci. Não há homem nenhum que não compreenda a violação. Ou a vingança.
um filme de Gaspar Noé
com Vincent Cassel, Monica Bellucci, Albert Dupontel
O filme trata de uma violação brutal e da vingança que o namorado e um amigo do namorado levam a cabo.
Estranha mas muito boa é a forma como a história é contada: de trás para a frente, do fim para o princípio. Começa quando a polícia retira de um bar rasca os feridos que resultaram do ajuste de contas entre os dois homens e o violador, e prossegue depois, episódio por episódio, até ao início da noite, quando a mulher e o namorado estão em casa a prepararem-se para sair.
Vista assim, a história assume claramente a irreversibilidade do título: já sabemos o que aconteceu depois de cada episódio, de cada escolha que vemos no écran. Nada poderá ser diferente porque já aconteceu.
Além disso há a Monica Belucci. Não há homem nenhum que não compreenda a violação. Ou a vingança.
Confesso a minha ignorância. Nunca tinha ouvido falar de Ira Levin nem das Stepford Wives. Encontrei o livro por acaso na FNAC. E só olhei segunda vez para ele porque tinha na capa a cara da Nicole Kidman.
Voltarei a falar da Kidman. Agora interessa-me Ira Levin.
Para quem não sabe, The Stepford Wives é um livro de 1972 que deu
um filme em 1975 e um remake em 2004.
A história é simples. Numa pequena cidade americana com uma concentração elevada de empresas high-tech, um grupo de maridos fartos de esposas feministas ou proto-feministas traça um plano maldoso e genial: substituir as reinvindicativas e preguiçosas caras-metade por andróides submissas e sexy.
No início da história, Joanna, uma recém-chegada imbuída do espírito women lib típico dos anos 70, fotógrafa amadora, tenta ultrapassar, sem sucesso, a atitude recatada e estranhamente coquete das esposas de Stepford, ao mesmo tempo que manifesta o seu desagrado pela Men's Association e faz amizade com outras duas mulheres que, como ela, chegaram à cidade há pouco tempo e, como ela, estranham tudo aquilo: Bobbie e Charmaine. O marido manifesta-lhe inteiro apoio. À medida que a história avança, as duas amigas tornam-se, também elas, esposas de Stepford - submissas e coquetes. Por fim, Joanna descobre o maquiavélico plano por trás de tudo aquilo e, sobretudo, que o próprio marido é conivente. Também ela, numa sequência final trepidante, vai tornar-se uma esposa de Stepford.
Agora. O que é muito interessante neste livro - para além da escrita, que é realmente boa, a anos-luz do estilo pastoso-arroz-malandro a la Stephen King - é a forma subtil como Ira Levin dá um retrato irritante das mulheres verdadeiras - desleixadas, desarrumadas, egoístas - que faz com que o leitor, quase sem se aperceber, não consiga sentir empatia pelo seu destino cruel: Charmaine é uma puta frígida que só pensa em jogar ténis e ver-se livre do marido, e Bobbie é uma 'companheira' avant la lettre. Não se consegue lamentá-las. Experimentamos mesmo uma satisfação maldosa quando as vemos transformadas em bonecas sexuais e maníacas do housekeeping, submissas à vontade dos maridos e arrependidas das atitudes egoístas do passado.
Deve ter sido aqui que o bdsm americano foi buscar a estranha mania das slaves housekeepers.
Voltarei a falar da Kidman. Agora interessa-me Ira Levin.
Para quem não sabe, The Stepford Wives é um livro de 1972 que deu
um filme em 1975 e um remake em 2004.
A história é simples. Numa pequena cidade americana com uma concentração elevada de empresas high-tech, um grupo de maridos fartos de esposas feministas ou proto-feministas traça um plano maldoso e genial: substituir as reinvindicativas e preguiçosas caras-metade por andróides submissas e sexy.
No início da história, Joanna, uma recém-chegada imbuída do espírito women lib típico dos anos 70, fotógrafa amadora, tenta ultrapassar, sem sucesso, a atitude recatada e estranhamente coquete das esposas de Stepford, ao mesmo tempo que manifesta o seu desagrado pela Men's Association e faz amizade com outras duas mulheres que, como ela, chegaram à cidade há pouco tempo e, como ela, estranham tudo aquilo: Bobbie e Charmaine. O marido manifesta-lhe inteiro apoio. À medida que a história avança, as duas amigas tornam-se, também elas, esposas de Stepford - submissas e coquetes. Por fim, Joanna descobre o maquiavélico plano por trás de tudo aquilo e, sobretudo, que o próprio marido é conivente. Também ela, numa sequência final trepidante, vai tornar-se uma esposa de Stepford.
Agora. O que é muito interessante neste livro - para além da escrita, que é realmente boa, a anos-luz do estilo pastoso-arroz-malandro a la Stephen King - é a forma subtil como Ira Levin dá um retrato irritante das mulheres verdadeiras - desleixadas, desarrumadas, egoístas - que faz com que o leitor, quase sem se aperceber, não consiga sentir empatia pelo seu destino cruel: Charmaine é uma puta frígida que só pensa em jogar ténis e ver-se livre do marido, e Bobbie é uma 'companheira' avant la lettre. Não se consegue lamentá-las. Experimentamos mesmo uma satisfação maldosa quando as vemos transformadas em bonecas sexuais e maníacas do housekeeping, submissas à vontade dos maridos e arrependidas das atitudes egoístas do passado.
Deve ter sido aqui que o bdsm americano foi buscar a estranha mania das slaves housekeepers.
sexta-feira, 20 de maio de 2005
Hyeronimus Bosch era um católico devoto, partidário da Contra-Reforma. Suponho que nada teria contra o Santo Ofício. Pintou para igrejas, palácios de bispos e sedes de confrarias. Ele mesmo foi confrade de Nossa Senhora de 'sHertogenbosch.
Tinham intuitos didácticos, pois, as pinturas. Deliciosa ironia.
O meu primeiro contacto com Bosch foi no Prado, aos 14 anos, precisamente diante do INFERNO, parte do tríptico O JARDIM DAS DELÍCIAS. As minhas imberbes hormonas saltaram de gozo culpado diante dos corpos torturados e dos esgares que se não entende se são de sofrimento ou êxtase. Já se sabe que esses dois estados da alma se não separam.
Bosch foi, pois, o primeiro SM. Foi, pelo menos, quem primeiro me apresentou os fascínios equívocos desse mundo. Passei um dia inteiro no Prado, sozinho, e um bom terço desse tempo foi gasto na ala Bosch. O resto, vi quase a correr - incluindo a GUERNICA, uma desilusão, e LA MAJA DESNUDA, claramente superior a muito material da Gina.
Tinham intuitos didácticos, pois, as pinturas. Deliciosa ironia.
O meu primeiro contacto com Bosch foi no Prado, aos 14 anos, precisamente diante do INFERNO, parte do tríptico O JARDIM DAS DELÍCIAS. As minhas imberbes hormonas saltaram de gozo culpado diante dos corpos torturados e dos esgares que se não entende se são de sofrimento ou êxtase. Já se sabe que esses dois estados da alma se não separam.
Bosch foi, pois, o primeiro SM. Foi, pelo menos, quem primeiro me apresentou os fascínios equívocos desse mundo. Passei um dia inteiro no Prado, sozinho, e um bom terço desse tempo foi gasto na ala Bosch. O resto, vi quase a correr - incluindo a GUERNICA, uma desilusão, e LA MAJA DESNUDA, claramente superior a muito material da Gina.
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