quarta-feira, 2 de março de 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um dia dedicado a preguica, nao a moral, a fisica. Acordar ao meio-dia, pequeno-almoco sem sequer tomar banho, na varanda, a sentir o cheiro a primavera no ar. Cafe, bolo de chocolate, iogurte, torradas, ameixas. Delicia. Acabar com a pergunta: onde e que se almoca?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Lembro-me de uma história: o homem agarrava-a, empurrava-a contra a parede, subia as mãos pelas coxas. Os dedos marcados na pele. Era Verão. Os corpos suavam. E a pintura da parede descolava-se ao contacto com a pele, vinha em bocados com a pele, desenhava em negativo o corpo dela suado e esmagado contra a parede. Os cheiros: suor e pele esfolada, sangue e tinta quente, um vago mofo no ar da sala.

Eu adoro a noite. É quando penso melhor, leio melhor, escrevo melhor, respiro melhor. As árvores cobertas de chuva a brilharem sob os candeeiros, no jardim diante da minha janela. O barulho dos carros que passam a intervalos na estrada ao fundo. Os outros ruídos abafados da noite. Só nos filmes é que os ruídos da noite assustam. A noite verdadeira é sossegada e suave. As cores da noite são lindas. São escuras, densas, protectoras.
A noite também tem a vantagem de não haver muita gente acordada com quem sejamos obrigados a falar de banalidades: Está tudo bem? Hoje está um lindo dia! ou Esta chuva nunca mais pára! Os meninos vão bem? Que crescidos! et coetera. À noite essa gente está toda a dormir, decerto cansada das tretas que disse ao longo do dia. Quem está acordado está a trabalhar. Polícias, putas, bombeiros e ladrões. Eu não sou nenhuma dessas coisas mas tento misturar-me.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

a rapariga, o rapaz, o mau e a cidade


A rapariga, o rapaz, o mau e a cidade. Cento e cinquenta páginas de acção e suspense. Papel amarelado. Comprado num alfarrabista de rua, na descida da Almirante Reis, do lado direito, antes da igreja dos Anjos. Li-o de um fôlego, acompanhado com duas cervejas, nessa mesma tarde, enquanto esperava pela Irene. Que chegou atrasada, como sempre. Mas muito bonita. Vestido cor-de-rosa justo e pele bronzeada.
A Irene era a minha namorada. Enfim, a minha parte de uma namorada. Eu sabia que ela tinha outro tipo quando eu estava demasiado ocupado com a minha tese para sair com ela. Nada que me incomodasse: eu e o outro distribuíamos entre os dois toda aquela imensa energia feminina para dar conselhos, comprar roupas, dar quecas e experimentar dietas. Eu, sozinho, não daria conta do recado: além de o meu trabalho exigir longas horas de solidão diante do computador ou na penumbra das bibliotecas, gosto de ver filmes antigos deitado no sofá, com um uísque na mão, gosto de be bop, gosto de futebol – tudo coisas que ela detesta. Assim eu tinha-a e tinha o resto e ela também me tinha a mim e tinha quem me substituísse quando eu não estava ou não estava para isso, e todos vivíamos felizes.
Quando a vi chegar atirei fora o livro, mas fiz mal, porque ela foi-se embora dois dias depois. As histórias com a rapariga, o rapaz, o mau e a cidade ter-me-iam feito bem então. A Irene foi-se embora porque eu a aborrecia. Já não tinha pedalada para ela. Na cama. Falta de tusa? Não, falta de fôlego. Muitos cigarros! Pois.

(*) a propósito de KISS KISS BANG BANG (sex. murder. mystery. welcome to the party)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sobre as mulheres: não lhes podes mentir, mas livra-te de lhes dizeres a verdade.

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Toda a gente agora tem uma obsessão imbecil pela natureza. Conhecidos meus, em geral gente calma e de bom senso, percorrem os hipermercados em busca do sumo natural perdido, anseiam e desesperam por sair de casa e respirar ar puro no meio das filas de trânsito, gastam horas a suar na marginal, em trajes menores, a respirar a maresia com travo de gasóleo.
A natureza é uma coisa horrível, cheia de bichos e humidade. Séculos de civilização deram-nos o tear, o alcatrão e a vidraça. E para quê? Para que os felizes herdeiros de tudo isso, nós mesmos, esta gente aqui do século XXI (Hé-lá-á-á-á-á-á-á! De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro, saúdo-te, Walt), metida em fatos de treino de cores berrantes, roxo cinzento verde laranja roxo verde cinzento laranja verde laranja roxo cinzento - vão correr para Monsanto.
Fiquem em casa e dêem uma queca! Drunfem os filhos, desliguem a televisão e metam-se na cama! Não façam nada disso e durmam. Bebam. Leiam. Percam-se nos chats, na cybertreta, no blogodancing. Arrotem. Mas por favor favor por favor - não sejam naturais.
A natureza transmite doenças. A natureza mata. A natureza provoca impotência, cancro da pele, cancro da mama, escorbuto, sida, fome, enfarte do miocárdio, pele seca, candidíase, colibacilo, caspa.
A natureza é uma desgraça.

sábado, 2 de julho de 2005

Ver Mr. and Mrs. Smith.
O filme é uma porcaria. Nem sequer gosto muito da Angelina Jolie. Mas a rapariga veio dizer o que todos os homens agradecem: que, quando começou a apalpar mulheres, percebeu que não há nada melhor do que umas boas curvas, e que a mania das anorécticas é uma merda. Louvada seja.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Cannes, 20 de Maio de 2003. Apresentação de Dogville, de Lars von Trier, com Nicole Kidman. Em Dogville a Kidman, além de ser violada várias vezes, anda metade do filme a arrastar um peso que tem amarrado aos pés com uma corrente para não fugir da cidade.
Contavam-se histórias de violentas discussões entre a Kidman e von Trier, com cenas de choro à mistura. Depois ela aparece em Cannes ao lado dele, a declarar que adorou ser dirigida por von Trier e que tenciona repetir a dose.
Um jornalista americano chama "taliban" ao realizador. Resposta: «Não acho graça nenhuma quando é um homem a ser torturado; prefiro as mulheres. Tenho pena que não tenha gostado do filme, mas haverá sempre quem goste... até das correntes.»
von Trier é conhecido pela violência - na relação com os actores (ver Bjork) e nas histórias que conta. Uma violência às vezes surda (ver Europa, filme já antigo, de 1991). Mas em Dogville há uma evidente acentuação dessa violência, e qualquer coisa de maligno na forma como o cenário é despido de elementos físicos (não há casas, apenas o seu desenho no chão) e tudo se concentra absolutamente nos corpos e nos elementos que os subjugam (o lenço que esconde os cabelos ruivos de Kidman, os ferros que a prendem).

domingo, 22 de maio de 2005

IRREVERSIBLE
um filme de Gaspar Noé
com Vincent Cassel, Monica Bellucci, Albert Dupontel

O filme trata de uma violação brutal e da vingança que o namorado e um amigo do namorado levam a cabo.
Estranha mas muito boa é a forma como a história é contada: de trás para a frente, do fim para o princípio. Começa quando a polícia retira de um bar rasca os feridos que resultaram do ajuste de contas entre os dois homens e o violador, e prossegue depois, episódio por episódio, até ao início da noite, quando a mulher e o namorado estão em casa a prepararem-se para sair.
Vista assim, a história assume claramente a irreversibilidade do título: já sabemos o que aconteceu depois de cada episódio, de cada escolha que vemos no écran. Nada poderá ser diferente porque já aconteceu.
Além disso há a Monica Belucci. Não há homem nenhum que não compreenda a violação. Ou a vingança.
Confesso a minha ignorância. Nunca tinha ouvido falar de Ira Levin nem das Stepford Wives. Encontrei o livro por acaso na FNAC. E só olhei segunda vez para ele porque tinha na capa a cara da Nicole Kidman.
Voltarei a falar da Kidman. Agora interessa-me Ira Levin.

Para quem não sabe, The Stepford Wives é um livro de 1972 que deu
um filme em 1975 e um remake em 2004.

A história é simples. Numa pequena cidade americana com uma concentração elevada de empresas high-tech, um grupo de maridos fartos de esposas feministas ou proto-feministas traça um plano maldoso e genial: substituir as reinvindicativas e preguiçosas caras-metade por andróides submissas e sexy.
No início da história, Joanna, uma recém-chegada imbuída do espírito women lib típico dos anos 70, fotógrafa amadora, tenta ultrapassar, sem sucesso, a atitude recatada e estranhamente coquete das esposas de Stepford, ao mesmo tempo que manifesta o seu desagrado pela Men's Association e faz amizade com outras duas mulheres que, como ela, chegaram à cidade há pouco tempo e, como ela, estranham tudo aquilo: Bobbie e Charmaine. O marido manifesta-lhe inteiro apoio. À medida que a história avança, as duas amigas tornam-se, também elas, esposas de Stepford - submissas e coquetes. Por fim, Joanna descobre o maquiavélico plano por trás de tudo aquilo e, sobretudo, que o próprio marido é conivente. Também ela, numa sequência final trepidante, vai tornar-se uma esposa de Stepford.

Agora. O que é muito interessante neste livro - para além da escrita, que é realmente boa, a anos-luz do estilo pastoso-arroz-malandro a la Stephen King - é a forma subtil como Ira Levin dá um retrato irritante das mulheres verdadeiras - desleixadas, desarrumadas, egoístas - que faz com que o leitor, quase sem se aperceber, não consiga sentir empatia pelo seu destino cruel: Charmaine é uma puta frígida que só pensa em jogar ténis e ver-se livre do marido, e Bobbie é uma 'companheira' avant la lettre. Não se consegue lamentá-las. Experimentamos mesmo uma satisfação maldosa quando as vemos transformadas em bonecas sexuais e maníacas do housekeeping, submissas à vontade dos maridos e arrependidas das atitudes egoístas do passado.

Deve ter sido aqui que o bdsm americano foi buscar a estranha mania das slaves housekeepers.

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Hyeronimus Bosch era um católico devoto, partidário da Contra-Reforma. Suponho que nada teria contra o Santo Ofício. Pintou para igrejas, palácios de bispos e sedes de confrarias. Ele mesmo foi confrade de Nossa Senhora de 'sHertogenbosch.
Tinham intuitos didácticos, pois, as pinturas. Deliciosa ironia.
O meu primeiro contacto com Bosch foi no Prado, aos 14 anos, precisamente diante do INFERNO, parte do tríptico O JARDIM DAS DELÍCIAS. As minhas imberbes hormonas saltaram de gozo culpado diante dos corpos torturados e dos esgares que se não entende se são de sofrimento ou êxtase. Já se sabe que esses dois estados da alma se não separam.
Bosch foi, pois, o primeiro SM. Foi, pelo menos, quem primeiro me apresentou os fascínios equívocos desse mundo. Passei um dia inteiro no Prado, sozinho, e um bom terço desse tempo foi gasto na ala Bosch. O resto, vi quase a correr - incluindo a GUERNICA, uma desilusão, e LA MAJA DESNUDA, claramente superior a muito material da Gina.

sábado, 26 de março de 2005

Haverá quem vá ao cinema ver um filme com a Monica Belucci para ver o filme? Quem são esses castrados? Os filmes com a Monica Belucci deviam passar no Olímpia, ou no Animatógrafo. Só para homens.
Gosto do Bukowski. É um beatnick bêbado semi-impotente mas não tem vergonha. Para ele as mulheres são conas com pernas, boas para apalpar e foder. Não é como o Miller, que tem sempre de embrulhar as fodas em epigramas e divagações pseudo-filosóficas. Ou o Gutierrez, que disfarça o espírito fodilhão sob a capa do cubano balda e pobre. Não. O Bukowski é americano, é arrogante, é malcriado, é preguiçoso, é porco - e fode tudo o que lhe aparece à frente. E supõe-se que, no fim, arrota.

sexta-feira, 25 de março de 2005

Parada junto ao semáforo da Alexandre Herculano com a Braancamp. O sinal está amarelo e ainda posso passar, mas travo e páro. Ao meu lado param um taxista e outro tipo. Ela atravessa. Calças brancas de huri, muito largas, atadas em baixo nos tornozelos, seguras por um cordão amarelo à cintura. Blusa amarelo-dourado. Mamas. Saltos. RayBans. Deus!
Devo estar com cara de asno, porque ela olha-me fixamente ao passar à minha frente e ri-se.