domingo, 22 de maio de 2005

Confesso a minha ignorância. Nunca tinha ouvido falar de Ira Levin nem das Stepford Wives. Encontrei o livro por acaso na FNAC. E só olhei segunda vez para ele porque tinha na capa a cara da Nicole Kidman.
Voltarei a falar da Kidman. Agora interessa-me Ira Levin.

Para quem não sabe, The Stepford Wives é um livro de 1972 que deu
um filme em 1975 e um remake em 2004.

A história é simples. Numa pequena cidade americana com uma concentração elevada de empresas high-tech, um grupo de maridos fartos de esposas feministas ou proto-feministas traça um plano maldoso e genial: substituir as reinvindicativas e preguiçosas caras-metade por andróides submissas e sexy.
No início da história, Joanna, uma recém-chegada imbuída do espírito women lib típico dos anos 70, fotógrafa amadora, tenta ultrapassar, sem sucesso, a atitude recatada e estranhamente coquete das esposas de Stepford, ao mesmo tempo que manifesta o seu desagrado pela Men's Association e faz amizade com outras duas mulheres que, como ela, chegaram à cidade há pouco tempo e, como ela, estranham tudo aquilo: Bobbie e Charmaine. O marido manifesta-lhe inteiro apoio. À medida que a história avança, as duas amigas tornam-se, também elas, esposas de Stepford - submissas e coquetes. Por fim, Joanna descobre o maquiavélico plano por trás de tudo aquilo e, sobretudo, que o próprio marido é conivente. Também ela, numa sequência final trepidante, vai tornar-se uma esposa de Stepford.

Agora. O que é muito interessante neste livro - para além da escrita, que é realmente boa, a anos-luz do estilo pastoso-arroz-malandro a la Stephen King - é a forma subtil como Ira Levin dá um retrato irritante das mulheres verdadeiras - desleixadas, desarrumadas, egoístas - que faz com que o leitor, quase sem se aperceber, não consiga sentir empatia pelo seu destino cruel: Charmaine é uma puta frígida que só pensa em jogar ténis e ver-se livre do marido, e Bobbie é uma 'companheira' avant la lettre. Não se consegue lamentá-las. Experimentamos mesmo uma satisfação maldosa quando as vemos transformadas em bonecas sexuais e maníacas do housekeeping, submissas à vontade dos maridos e arrependidas das atitudes egoístas do passado.

Deve ter sido aqui que o bdsm americano foi buscar a estranha mania das slaves housekeepers.

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